sábado, 2 de maio de 2009

A produção social do espaço urbano


GOTTDIENER, Mark. A produção social do espaço urbano. São Paulo: Edusp, 1997, 2a edição, 310 p.

http://www.ub.es/geocrit/b3w-615.htm

Sílvia Regina Pereira[1] 

Universidade Estadual Paulista – UNESP (Campus de Presidente Prudente-SP-Brasil)


Palabras clave: ecologia urbana, espacio urbano, producción social del espacio  

Palavras-chave: ecologia urbana, espaço urbano, produção social do espaço

Key words: urban ecology, urban space, social production of the space

  No sentido de contribuir para o entendimento da atual organização regional da vida cotidiana nos Estados Unidos, pós Segunda Guerra Mundial, o autor se propõe a superar os paradigmas e teorias urbanas que, a seu ver, seriam insuficientes para explicar a organização espacial contemporânea. Por estas restringirem-se ao estudo da morfologia e não contemplarem a organização social que pode produzir, manter e até reproduzir os padrões de usos da terra. Considera, imprescindível, assim, a substituição dos paradigmas urbanos convencionais por uma abordagem da produção social do espaço.

Por meio da observação dos atuais problemas da sociedade procura unificar os vários veios de análise urbana e compreender a relação entre Estado e economia que envolve a produção do espaço regional. Analisa a intersecção espacial dos processos políticos e econômicos, por compreender que a dispersão regional depende das forças sociais, que influenciariam os padrões internos de diferenciação funcional. Geralmente nas pesquisas urbanas o estudo dos problemas econômicos, políticos e sociais são dominados por uma perspectiva espacial básica, pautada na análise dos padrões de localização.

O autor apresenta as idéias e limitações das abordagens da Ecologia, Geografia e Economia Urbana, que dominam os estudos acadêmicos urbanos nos Estados Unidos: o estruturalismo marxista, a economia política urbana, o neoweberianismo e a perspectiva de produção do espaço.

As limitações das abordagens convencionais são apontadas desde uma perspectiva marxista crítica. Embora a encare como mais adequada para interpretar os padrões de desenvolvimento urbano, o autor, também, ressalta seus limites. Entre os quais destacam-se, por um lado, sua incapacidade de escapar dos vieses analíticos que privilegiam o crescimento econômico, e por outro, a redução da abordagem dos fenômenos ao espaço de assentamento. O espaço social, assim, seria visto como um mero receptáculo de processos econômicos e políticos mais gerais. Por conseguinte, o autor defende a construção de uma política pública urbana preocupada com ações sociais transformadoras e não apenas com a identificação da qualidade de vida comunitária, bem como com o crescimento econômico.

A obra é composta por oito capítulos sobre os quais discorremos brevemente a seguir.  No capitulo “Ecologia, Economia e Geografias Urbanas, análise espacial em transição” Gottdiener apresenta as idéias concernentes a cada paradigma. Com relação à Ecologia Urbana, ressalta que Spencer foi o primeiro a relacionar forma e função social por meio do conceito de competição de espécies da teoria de Charles Darwin. A abordagem ecológica baseava-se na analogia biológica que também estava presente na sociologia, economia e geografia urbana.

Um problema dessa abordagem era utilizar a analogia biológica, do organicismo e da ênfase comportamental para focalizar características da espécie humana e sua relação com a organização espacial. Para os teóricos da Escola de Chicago, os efeitos da organização econômica e dos processos competitivos seriam explicados por padrões agregados de comportamento social. Vinculavam, assim, o comportamento humano à competição econômica, e a ordem social ao deslocamento espacial da divisão do trabalho. Nessa perspectiva não se consideravam os valores culturais na interação social. Defendia-se o isolamento de impulsos sociobiogênicos específicos, que poderiam ser generalizados para todas as cidades, por ajudar a estruturar o espaço.

Para exemplificar a reformulação da Ecologia Urbana, após a Segunda Guerra Mundial, Gottdiener apresenta as idéias de Hawley, autor, que privilegiou o estudo da rede funcional ao invés da forma espacial, e que assim contribuiu para manter o organicismo na raiz do pensamento ecológico, além de adotá-lo para explicar a estratificação da riqueza e dos recursos. Gottdiener assinala que a Ecologia Urbana Contemporânea, por possuir uma visão biologicamente reducionista das relações humanas, ignora as influências de classe, status e poder político. Destaca, ainda, seu caráter conservador e seu enfoque tecnologicamente determinista, por associar as inovações de transporte e comunicações ao crescimento e mudanças urbanas, sem considerar o papel dos conflitos sociais, dos programas e políticas de governo e do desenvolvimento desigual e combinado. Neste capítulo, Gottdiener aponta, ainda, que a Geografia e Economia Urbana, após a Segunda Guerra Mundial, adotaram conceitos como tamanho da cidade, função e organização espacial, com base nas proposições da teoria dos lugares centrais de Christaller.

No capítulo “Economia Política Marxista” Gottdiener assinala que a abordagem crítica toma o lugar das correlações fatoriais urbanas descritivas, típicas da Ecologia Urbana, dada a necessidade de uma síntese explicativa dos fenômenos, crises e processos que conformavam o ambiente urbano. Não obstante, assinala a tendência positivista da Economia Política Marxista, que ao privilegiar o aspecto econômico nega a atuação de outros fatores. Chama a atenção, também, para o funcionalismo endêmico destas análises, que tendem a explicar as causas pelos efeitos. Critica, ainda, o fato destas abordagens se concentrarem nos padrões de desenvolvimento econômico da sociedade, mais que no projeto revolucionário de transformá-la.

No capítulo “Paradigmas Flutuantes: o debate sobre a teoria do espaço” é apresentada a argumentação de Castells em contraposição a Lefebvre, sendo que os dois propunham uma concepção mais global da articulação entre sociedade e espaço embora com epistemologias diferentes. Castells considera o espaço um produto material de uma dada formação social, e critica a Escola de Chicago pelo “organicismo revolucionário”. Sua abordagem consiste em especificar uma teoria geral da organização social, na medida em que ela se articula com o espaço, não existiria uma teoria específica, mas um desdobramento e especificação da teoria da estrutura social. Castells afirma a teoria althusseriana da estrutura social para explicar as formas espaciais, defendendo que se deve aplicar a estrutura economia, política, ideologia, não ao sistema social como um todo, como o fez Althusser, mas ao sistema urbano. Para Castells a estrutura econômica seria o principal elo conceitual de uma teoria do espaço, rejeitando a unidade ideológica e a estrutura política, pois a organização espacial tornou-se cada vez mais produto dos processos econômicos que políticos. A dificuldade, segundo Gottdiener, em relação à teoria de Castells é sua insistência em conservar o termo “urbano” na análise e sua definição da cidade como uma unidade espacial de reprodução da força de trabalho. Ainda neste capítulo, Gottdiener assinala que Lefebvre  trabalha na perspectiva da produção do espaço, e que para ele o aspecto teórico mais importante seria a natureza multifacetada do espaço, que não poderia ser reduzido a uma localização ou às relações sociais da posse de propriedade, mas deveria ser considerado como local da ação e da possibilidade social. Gottdiener destaca que Lefebvre propõe uma estratégia de libertação, que não implica em substituir a luta de classes por outro tipo de luta, mas complementá-la, além de enfatizar a importância de produzir um espaço em concomitância com a ação radical.

No quinto capítulo, “Além da Economia Política Marxista, a fórmula da trindade e a análise do espaço”, Gottdiener aponta que as abordagens marxistas negligenciaram o espaço em favor da temporalidade e que para estudar a interconexão entre espaço/tempo, atividades sociais e as relações sociais seria necessário ir além das categorias analíticas marxistas. Em seu entender os defensores do marxismo distanciaram-se das análises convencionais, ao afirmarem que a contribuição fundamental de Marx foi entender, por meio de Hegel, que as aparências, empiricamente observadas, constituíam reflexões epifenomenais de relações sociais subjacentes e invisíveis. A maioria dos economistas políticos marxistas não se dissociou do pensamento positivista, por associar causas distintas à determinação de eventos superficiais. Gottdiener analisa, também nesse capítulo, o conflito de classes, o espaço, a natureza das classes de moradia, o valor da terra e o papel do espaço na acumulação do capital.

No sexto capítulo, “Estrutura e ação na produção do espaço”, Gottdiener destaca que uma análise econômica não pode ser marxista, se não considerar a natureza social do capitalismo, pois as categorias marxistas são ao mesmo tempo econômicas, sociais e políticas. A perspectiva analítica da produção do espaço compreenderia a organização socioespacial não como uma estrutura conceitual ultrapassada das formas espaciais da cidade, mas como conseqüência direta das relações entre processos econômicos, políticos e culturais. Para se entender a produção do espaço seria necessária uma abordagem sintética que fosse além dos dois pólos da estrutura e ação, para uni-los em uma explicação da articulação entre a sociedade e o espaço. As formas espaciais, segundo o autor, seriam produzidas pelo que  denomina articulação entre estruturas capitalistas tardias e ações do setor da propriedade, especialmente os efeitos dos grupos escolhidos e do Estado, na canalização do fluxo de desenvolvimento social para lugares e modelos específicos.

No sétimo capítulo, “A reestruturação do espaço de assentamento”, Gottdiener discute o espaço metropolitano desconcentrado como uma forma fenomenal, que se coloca em contraste com os nós comprimidos característicos do capitalismo do século XIX. Ressalta que,  na perspectiva convencional sobre desconcentração, a reestruturação de regiões metropolitanas envolve forças e modos de mudanças sociais mais complexos do que os  fatores causais considerados pela teoria ecológica, sendo necessário associar a característica estrutural de modo de produção a aspectos contemporâneos da forma socioespacial. Analisa,  também, a desconcentração regional metropolitana, o problema da habitação, a questão da suburbanização, a expansão metropolitana e as atividades imobiliárias, a localização das indústrias nas periferias, ou seja, as mudanças entre centro e periferia.

No último capítulo, “Comunidade, liberação e vida cotidiana”, Gottdiener faz uma avaliação de seu livro, deixando claro que este nasceu de uma profunda inquietação sobre a inadequação das abordagens urbanas convencionais em compreender as transformações econômicas, políticas e culturais.

Esse livro brinda o leitor com um resgate das idéias dos paradigmas convencionais que analisam o urbano. Além de apresentar a perspectiva da produção do espaço, o autor procura desenvolver uma análise mais ampla sobre as transformações no espaço urbano, considerando as múltiplas inter-relações entre Estado e sociedade, e a intersecção com a política e a economia, no intuito de compreender as diferenças e desigualdades socioespaciais que se manifestam nesse espaço.
 
 

Notas

[1]Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Geografia da FCT/UNESP de Presidente Prudente-São Paulo e vinculada ao Programa de Doutorado do Departamento de Geografia Humana da Universitat de Barcelona (Espanha) onde está realizando estágio de Doutorado Sanduíche por meio da bolsa concedida pela CAPES.
 

© Copyright: Silvia Regina Pereira, 2005
© Copyright: Biblio3W, 2005

Ficha bibliográfica

PEREIRA, S. R. Gottdiener, M. A produção social do espaço urbano. Biblio3W, Revista Bibliográfica de Geografía y Ciencias Sociales, Universidad de Barcelona, Vol. X, nº 615, 20 de noviembre de 2005. [ISSN 1138-9796]. 


A construção da geografia cidadã segundo Milton Santos


Milton Santos: a construção da geografia cidadã (Resumo)

http://www.ub.es/geocrit/sn/sn-124g.htm

Denise Elias

Departamento de Geociências
Universidade Estadual do Ceará


Milton Santos foi o geógrafo que mais visibilidade deu à Geografia brasileira. Sua militância permanente em prol da cidadania e da ética extrapolou os muros acadêmicos. Produziu um obra numerosa e complexa, uma verdadeira teoria geográfica do espaço, que apresenta diferentes fases e faces e reclama ainda muita reflexão. O presente texto apresenta uma das muitas possibilidades de classificação de sua obra. Considera, para tanto, que seu pensamento e a organização de seu trabalho percorre dois caminhos básicos, desde o campo das reflexões filosóficas sobre a natureza do espaço geográfico, até trabalhos de natureza empírica, quando buscava a reconstrução intelectual do mundo a partir das experiências específicas, dando destaque à categoria lugar.

Palavras-chave. Milton Santos, epistemologia do espaço, teoria geográfica, filosofia das técnicas


Milton Saints: the construction of citizen geography (Abstract)

Milton Santos was the geographer who gives more visibility to the Brazilian geography. His militancy in name of the citizenship and ethic extrapolated the academic frontiers. He wrote a complex and numerous literary work, elaborating a real geographic theory of the space, presenting different faces and phases that still asks for more reflection. This paper intends to show one possibility to classify his work. Therefore, it considers that his thinking and the way his work could be organized followed two basic directions, since the field of philosophical thoughts about the nature of the geographic space, up to the empirical works, in which he was looking for the intellectual re-built of the world through specific experiences, giving emphasis to the place as a category.

Keywords: Milton Santos; spatial epistemology; geographical theory; philosophy of the technics


Em muitos aspectos, Milton Santos foi um homem à frente de seu tempo. Na era na qual muitos proclamavam o 'fim da história', ele introduziu o pensamento geográfico no centro do pensamento social do país, deu visibilidade à geografia brasileira e auto-estima aos geógrafos. Sua própria visibilidade e de sua obra extrapolaram os muros acadêmicos em 1994, quando ganhou o maior prêmio internacional da Geografia, o Vautrin Lud, uma espécie de Nobel da especialidade, atribuído por universidades de vários países. Naquele momento, sua visibilidade atingiu campos antes não imaginados, ultrapassando em muito o da Geografia e o do mundo acadêmico.

Privilegiados fomos os que pudemos desfrutar, de alguma forma, do seu cotidiano. A dor da partida é forte. Mas, ele continua vivo em sua obra. Resta-nos, assim, o consolo de senti-lo presente em cada um dos seus escritos e sua vasta obra continua nos instigando à descoberta, à pesquisa, ao novo e esta é uma forma de encontrá-lo, de aplacar as saudades e de ter esperança.

São muitas as lições que Milton Santos nos deixou e com ele aprendíamos não só sobre a geografia mas sobre a vida, como a de que o talento para a vida acadêmica é construído com muito trabalho metódico e cotidiano; que o verdadeiro intelectual não cede aos modismos da época e aos 'cantos de sereia' do sucesso fácil; que devemos lutar por uma universidade não atrelada ao mercado ou à técnica e que sem a curiosidade, o homem não chegará a lugar nenhum. Enumerá-las exige a reflexão de toda uma vida. De suas metáforas, conceitos e categorias ainda há muito por ser processado.

Sua colaboração para a construção epistemológica da ciência geográfica é nítida. Pensar o espaço, o território, o território usado era o objeto de seu trabalho. O uso da periodização; o imbricamento do teórico com o empírico, já que 'é através do estudo do lugar que o mundo é empiricamente percebido'; o estudo dos sistemas técnicos e dos sistemas normativos; assim como a idéia de que o mundo não se explica sem as suas diferentes partes são algumas das ferramentas imprescindíveis para o estudo da empiricização do tempo no espaço, nas diferentes escalas geográficas.

Aprendemos com ele que o mais importante é olhar para frente, é pensar o futuro. Assim, homenagea-lo é seguir seu exemplo de coragem, dedicação e perseverança, intensificando o uso e aperfeiçoando sua vasta obra, incorporando sua bibliografia em nossas disciplinas e em nossas reflexões sobre a Geografia e sobre o mundo. É seguir os ensinamentos que ele nos deixou, o seu exemplo de trabalho sério e cotidiano; de militância no campo das idéias; de liberdade de pensamento; de ideais de solidariedade e, especialmente, de otimismo e esperança quanto ao futuro da Geografia, da sociedade e do homem. É acreditar que um outro mundo é possível. Um mundo no qual certamente vingarão os ideais de solidariedade e cidadania.

Indicamos aqui uma das muitas possibilidades de classificação de sua obra.

A obra: uma classificação possível

Milton Santos produziu uma vasta e complexa obra que está aí posta para quem queira decifrá-la em suas diversas fases e faces. Seu pensamento e a organização de seu trabalho percorre dois caminhos básicos, desde o campo das reflexões filosóficas sobre a natureza do espaço geográfico, até trabalhos de natureza empírica, quando buscava a reconstrução intelectual do mundo a partir das experiências específicas, dando destaque à categoria lugar.

Na produção teórica de Milton Santos, enxergamos uma teoria geográfica do espaço, um conjunto coerente que nos permite ultrapassar a forma e compreender a essência, a estrutura e os processos, as formas-conteúdo. A elaboração de novos conceitos e categorias foi deveras frutífera e reclama ainda muita reflexão.

Alguns aspectos da sua obra promoveram metamorfoses no pensamento e nos estudos geográficos, tendo outros gerado muitas polêmicas. As flores das homenagens após a sua morte não estiveram sempre presentes em sua vida, tendo o confronto das idéias novas por ele produzidas conhecido momentos duros.

Dentre algumas das idéias tanto memoráveis e, por vezes, polêmicas, citaríamos a consideração do 'espaço como instância social'; 'o espaço urbano como sendo dividido pelos dois circuitos da economia'; 'a categoria de formação socioespacial'; 'a geografia como filosofia das técnicas'; 'o presente como a dialética de uma ordem global e de uma ordem local; 'a força da solidariedade organizacional destruindo a solidariedade orgânica', tornando o espaço cada vez mais racional; as normas como o veículo de homegeneização técnica e organizacional; a face material da globalização refletida na expansão do meio técnico-científico-informacional; as três unicidades como os dados constitutivos do atual sistema temporal; a periodização, um dos signos de seu método de trabalho, somente para citar algumas.

Por uma Economia Política da Urbanização do Terceiro Mundo

Uma das veias que percorrerá toda sua obra refere-se às formulações sobre os aspectos e faces da desigualdade no Terceiro Mundo e os impactos e repercussões sobre o território. São características desse momento os estudos sobre a estrutura interna da cidade, o processo de urbanização e o estudo da rede urbana nos países pobres. O grande destaque é para os países da América Latina, onde fundamenta as bases de seu trabalho, mas há também exemplos dos outros continentes subdesenvolvidos, especialmente de países africanos.

São vários os exemplos da fertilidade dessa fase. Poderíamos citar A Cidade nos Países Subdesenvolvidos (1965), que deu início a uma série de publicações sobre as especificidades e características próprias da urbanização no Terceiro Mundo. A publicação deste livro traz ao debate alguns dos problemas principais dessas cidades, convidando os geógrafos e demais leitores 'à meditação sobre o que esses grandes objetos construídos pelo homem podem representar na transformação que se deseja da fisionomia do mundo em que vivemos'.

Seguem-se A Urbanização Desigual (1980); Geografia y Economia Urbanas en los Países Subdesarrollados (1973); Pobreza Urbana (1978); Economia Espacial: críticas e alternativas (1978); Manual de Geografia Urbana (1981); Ensaios sobre a Urbanização Latino-americana (1982); O Trabalho do Geógrafo do Terceiro Mundo (1971); Espaço e Sociedade (1979) e O Espaço Dividido: os dois circuitos da economia urbana (1978), dentre os principais.

A publicação deste último livro é o exemplo maior e mais significativo dessa face de estudos. Com esse livro, Milton Santos desenvolve uma teoria sobre o espaço geográfico urbano e o subdesenvolvimento, tendo a interdisciplinariedade se intensificado, constituindo uma das principais características de sua obra e de seu trabalho.

Em O Espaço Dividido (p. 23-27), chama a atenção para o fato de que devemos considerar as modernizações como o único modo de levar em conta as implicações temporais da organização do espaço, especialmente no Terceiro Mundo. Por modernização entende-se a generalização de uma inovação vinda de um período anterior ou da fase imediatamente precedente. Considerando que cada período é caracterizado pela existência de um conjunto coerente de elementos de ordem econômica, social, política e moral, que constituem um verdadeiro sistema, sugere que devemos realizar uma divisão do tempo em períodos para reconhecer a existência da sucessão de modernizações, que seria a própria história das modernizações.

Por uma Epistemologia do Espaço

Uma outra face se afirma e caracteriza-se pelo mergulho na epistemologia da Geografia, do espaço, pela busca da compreensão da totalidade e do período histórico vigente desde o final da Segunda Guerra mundial.

São muitas as obras nessa linha e não poderíamos deixar de citar a publicação do texto 'Sociedade e Espaço: a formação social como teoria e como método', publicado pelo Boletim Paulista de Geografia, de 1977. A partir desse momento, o espaço como instância social se impõe. Seu esforço caminha no sentido de que a Geografia se preocupe mais com a formação do território do que com sua forma.

Para Milton Santos, a categoria formação econômica e social parecia adequada para ajudar à formulação de uma teoria válida do espaço. Para ele, não se podia falar de uma lei separada da evolução das formações espaciais, mas de formação socioespacial.

Com a publicação dePor uma Geografia Nova (1978),mergulha na epistemologia da Geografia e na dialética, marcando um tempo de mudança na Geografia, um período de renovação, de busca de novos paradigmas, traduzido no próprio subtítulo do livro 'Da Crítica da Geografia à Geografia Crítica'. A partir de então, ganha força a idéia da Geografia com bases interdisciplinares, a crença numa 'geografia refundada, instrumento teórico e prático para a transformação do mundo'.

Os livros Pensando o Espaço do Homem (1979); Espaço e Método (1985); Metamorfoses do Espaço Habitado (1988); Técnica, Espaço e Tempo (1994) e, finalmente, a obra síntese A Natureza do Espaço (1996) mostram uma face de grandes elocubrações teóricas, de multiplicação de conceitos e de categorias, da revisão de conceitos clássicos da Geografia. Esses livros estão entre as principais referências do corpo epistemológico da Geografia elaborado por Milton Santos.

Com a publicação de Pensando o Espaço do Homem ganha força a totalidade como componente do método; a idéia da epistemologia do espaço; a necessidade de compreensão das principais características da contemporaneidade, da aceleração contemporânea. Milton Santos destaca a importância de que o espaço seja estudado não somente na sua forma mas também na sua estrutura, no seu processo e na sua função, caso contrário, ao invés de espaciólogos, teríamos espacialistas, que estudariam o espaço em si mesmo.

Nesse momento, ganha força o estudo das relações entre técnica e espaço, das repercussões espaciais da revolução tecnológica, consagrando o período histórico como técnico-científico-informacional, cujo registro no espaço é o meio técnico-científico-informacional, conseqüência espacial do período marcado pela globalização da produção e do consumo.

Para Santos, o meio técnico-científico-informacional explicaria o impacto do processo de globalização no território, revelando a nova composição técnica e orgânica do espaço, constituído como o conjunto técnico inerente ao novo ciclo da civilização mundial, com conteúdo crescente de ciência, tecnologia e informação. 'É nele que se instalam as atividades hegemônicas, aquelas que têm relações mais longínquas e participam do comércio internacional, fazendo com que determinados lugares se tornem mundiais.' Essas idéias ganham força e derivações meia década depois com a publicação de Espaço e Método, onde muitas das questões apresentadas em Pensando o Espaço do Homem são complementadas.

Nessas obras, defende que qualquer lugar do planeta deve ser estudado à luz das novas condições históricas reinantes desde meados do século XX, em especial da globalização do espaço e da aceleração contemporânea, cuja compreensão está pautada na caracterização da contemporaneidade como pertencente a um período técnico-científico-informacional.

Desde então, a inserção da ciência, da informação e da tecnologia, em todos os níveis da produção e da vida social, forneceriam as bases para um estágio superior do desenvolvimento capitalista, influenciando, direta ou indiretamente, a realidade econômica, social, política e territorial de todos os países, sendo relevantes à compreensão das condições e tendências da utilização do território brasileiro e, sobretudo, de suas áreas economicamente mais desenvolvidas.

A crescente artificialização do meio ambiente resultaria, assim, na tecnoesfera, marcada pela presença de grandes objetos geográficos, idealizados e construídos pelo homem, articulados entre si em sistemas. Isto justificaria, então, que as técnicas constituem um bom caminho para a explicação do espaço e, conseqüentemente que uma direção epistemológica para a Geografia é pensá-la como Filosofia das Técnicas.

Em Metamorfoses do Espaço Habitado continua trilhando a busca do caminho analítico para a geografia crítica. Situa a geografia no contexto do mundo atual e rediscute categorias tradicionais, sugerindo linhas de reflexão metodológica. Reforça o papel da ciência, da tecnologia e informação como a base técnica da vida social atual e que, desse modo, deveriam participar da construção epistemológica renovadora da Geografia. Com este livro, reforçam-se os conceitos de fixos e fluxos no estudo do movimento das contradições do espaço geográfico.

Com Técnica, Espaço, Tempo impõe-se, definitivamente, a força da técnica como parte de sua epistemologia do espaço. Nessa obra destaca que, muito embora esteja longe de ser uma explicação da história, a técnica constitui uma condição fundamental para a sua explicação. Esse livro traz em seu âmago o fato de considerar o presente período histórico como algo que pode ser definido como um sistema temporal coerente, cuja explicação exige que sejam levadas em conta as características atuais dos sistemas técnicos e as suas relações com a realização histórica.

Apresenta mais um de seus pares dialéticos de explicação do espaço: sistemas de objetos e sistemas de ação. O espaço seria, então, o conjunto indissociável de sistemas de objetos naturais ou fabricados e de sistemas de ações, deliberadas ou não.

Reforça a idéia de que o espaço não se extinguiu com a aceleração contemporânea, mas apenas mudou de qualidade. Segundo Santos, viveríamos um momento da história no qual chegamos à possibilidade de uma totalidade empírica e de um contexto em que, paralelamente, se instala um novo sistema da natureza, onde o que conta é a natureza artificializada.

São apresentadas, também, as três unicidades como dados constitutivos do período: a unicidade técnica, a convergência dos momentos e a unicidade do motor. 'Esses três dados, a um só tempo causas e efeitos uns dos outros, são solidários em escala mundial'.

Destaca ainda que, como a dialética está presente em tudo e a contradição a rege, o mundo da globalização doentia é contrariado no lugar e o espaço mundial existe apenas como metáfora. Para ele, quanto mais os lugares se globalizam, mais se tornam singulares, no sentido de que o arranjo que os elementos componentes do território têm em um determinado lugar, não será encontrado em nenhum outro. Assim, a própria globalização acaba por produzir a fragmentação.

Com A Natureza do Espaço reforça sua epistemologia do espaço, contribuindo para a teoria social. Multiplicam-se e reforçam-se os conceitos e categorias: tecnoesfera e psicoesfera; tempos rápidos dominantes e tempos lentos hegemonizados; redes, produto das condições contemporâneas da técnica; ações que se distinguem pela sua racionalidade e intencionalidade; zonas opacas e zonas luminosas; tecnificação do território redefinindo a divisão do trabalho mediada pela técnica; horizontalidades e verticalidades, como recortes territoriais no tempo da globalização etc.

Um Modelo de Análise e de Síntese do Brasil

Uma primeira fase de estudos sobre o Brasil iniciou-se antes do exílio. Abrangendo a escala local e mais empírica, foi voltada à realidade baiana. A Bahia era o centro das preocupações, tendo estudado a região cacaueira e Salvador, na década de 1950. Priorizava o estudo dos problemas urbanos e regionais.

Milton Santos insistia no fato de que a geografia crítica, para ser útil e utilizada, tem que ser analítica e não apenas discursiva. Dessa forma, de volta ao Brasil, após uma longa fase de exílio, intensificou a observação e a leitura analítica do território brasileiro, uma vez que o considerava como o melhor observatório do que se passa no país.

O Estado de São Paulo e a metrópole paulistana tiveram destaque particular. Os esforços para a compreensão da maior cidade brasileira ficam registrados quando publica SP: metrópole corporativa fragmentada (1990), estudo posteriormente complementado com Por uma Economia Política da Cidade (1994). Em 1993, publica A Urbanização Brasileira, obra síntese para pensar o processo da urbanização no Brasil.

Essas três obras apresentam, ao mesmo tempo, discussão teórico-metodológica, ou seja, o uso do método e da metodologia para casos vertentes como da urbanização e da morfologia da metrópole paulistana, em particular, e do Brasil como um todo, resultados de um processo de observação e leitura analítica da urbanização brasileira em geral. Se os resultados aparecem de forma separada, não são, todavia, propriamente fragmentários, já que, entre eles, guardam coerência e são fruto de uma fase bastante frutífera de pesquisas com alguns de seus principais interlocutores e orientandos do Instituto de Geociências da UFRJ, onde lecionara logo que regressara ao Brasil, em 1978 e, principalmente, do Departamento de Geografia da USP, a partir de 1983.

Embora já conhecido internacionalmente há duas décadas, é a partir de então que conquista visibilidade nacional, fato que se acirra na década de 1990. O aparato institucional uspiano possibilitou galgar ou aprofundar conexões, como a do intercâmbio, da interdisciplinaridade, do debate com intelectuais de outras áreas do conhecimento. Um dos marcos primeiros deste momento foi a organização do simpósio 'A Metrópole e a Crise', em 1985, ao qual se seguiram outros de igual magnitude.

Foi um período de muitas atividades de pesquisa e simpósios organizados por Milton Santos e sua equipe, da qual tive o privilégio de participar, ainda como graduanda. Eram reuniões com a participação limitada aos componentes permanentes do seu grupo de pesquisa, além de professores convidados, de universidades brasileiras e européias. O grupo era interdisciplinar, pois contava com a participação de geógrafos, sociólogos e arquitetos, desenvolvia projetos financiados pelas principais instituições de fomento à pesquisa do país.

Dentre os primeiros projetos, tínhamos o intitulado 'O Centro Nacional: crise mundial e redefinição da Região Polarizada'. Como objetivo principal apresentava o estudo do impacto da crise econômica mundial na organização territorial das atividades econômicas, nos recursos financeiros e na população do Brasil. Compreendia a crise mundial como constituindo um momento de clivagem, no qual poderiam ser observados os rumos assumidos pela penetração de uma nova frente tecnológica e científica de consequências marcantes para a divisão territorial e social do trabalho. A preocupação do projeto com o centro nacional implicou na adoção de uma perspectiva metodológica através da qual o centro foi definido dentro de um contexto de relações econômicas integradas, uma sub-totalidade de um mundo globalizado.

Como um dos resultados deste projeto, Santos sugere uma revisão dos critérios de divisão regional do país, por considerá-la ultrapassada. Propõe uma classificação que levava em consideração o impacto da modernização ocorrida no território, uma vez que a urbanização poderia ser mais inteligentemente descrita se fosse considerada a base da organização da produção atual, resultado da herança histórica e da velocidade das inovações. Propõe, então, três grandes regiões, e apresenta o conceito de Região Concentrada, onde a difusão de inovações foi mais veloz e complexa, com uma contínua renovação das forças produtivas e do território, que responderam com grande velocidade às necessidades colocadas pelos agentes econômicos hegemônicos. Compunha-se pelas Regiões Sudeste, Sul e partes da Centro-Oeste.

Para Santos, a Região Concentrada do Brasil é aquela na qual, desde o primeiro momento da mecanização do território, ocorre uma adaptação progressiva e eficiente aos interesses do capital hegemônico, reconstituindo-se à imagem do presente técnico-científico-informacional, transformando-se na área com maior expansão dos fixos artificiais e dos fluxos de todas as naturezas. Nela, o meio técnico-científico-informacional se dá como área contínua, embora apareça como manchas e pontos nas outras áreas do território nacional.

A partir de 1986, iniciaram-se alguns outros projetos que deram parte do sustentáculo dos livros sobre São Paulo e sobre a urbanização brasileira. Um deles inscrevia-se em uma temática mais ampla, isto é, a forma como se dava a reorganização do espaço geográfico à luz das novas condições históricas geradas pelo período técnico-científico. O objetivo principal era o entendimento do que era então, de um modo geral, a urbanização brasileira, suas realidades, seus processos e suas tendências, buscando, sobretudo, o reconhecimento dos elementos de estruturação do espaço, em suas diversas escalas de ação.

Outro projeto que deu origem aos livros supracitados compreendia o estudo de alguns aspectos do uso do território como decorrência do papel que a ciência, a tecnologia e a informação passaram a ter, direta ou indiretamente, como dados fundamentais da realização econômica, social e política e da reelaboração dos espaços geográficos, sobretudo nos últimos decênios. Procurava, assim, reconhecer e dimensionar, qualitativa e quantitativamente, os vetores de modernização com incidência direta ou indiretamente espacial no Estado de São Paulo. A pesquisa apresentava recortes na escala regional, especialmente na Região Metropolitana, e nas regiões de Ribeirão Preto, Campinas e Sorocaba, de forma a reconhecer, de um ponto de vista sistêmico, o conjunto de fatores locais e extra-locais e o resultado de sua ação transformadora, no campo e na cidade. Outro projeto preocupava-se fundamentalmente com a reorganização espacial recente do interior do Estado de São Paulo, incluída a redefinição do fenômeno da urbanização e os novos papéis no presente sistema temporal.

Em São Paulo: Metrópole Corporativa Fragmentada, mostra como 'o processo de globalização conduz a uma nova divisão internacional do trabalho e cria lugares mundializados, onde se destacam as denominadas metrópoles globais, das quais São Paulo é uma das principais referências no Terceiro Mundo. Alinha, nesse livro, as razões pelas quais essa metrópole brasileira pode ser considerada uma cidade mundial, mostrando o seu desempenho nas diversas atividades características da modernidade contemporânea. O papel da ciência, da tecnologia e da informação é devidamente destacado como resposta às novas exigências da produção' contemporânea.

Em Por uma Economia Política da Cidade, 'continua seu processo de observação e leitura analítica da urbanização brasileira em geral e da metrópole paulista em particular, através de uma análise empírica, que é, por sua vez, uma continuação de uma reflexão teórico-metodológica mais ampla e antiga'.

A Urbanização Brasileira, obra basilar para quem quer entender como se construiu o Brasil, especialmente em sua fase mais recente, uma vez que é, ao mesmo tempo, um estudo de análise e de síntese sobre a evolução do território e da urbanização do país, urbanização que se mostra corporativa, refletindo-se na desigual distribuição do meio técnico-científico-informacional, que reforça, ainda mais, a construção de uma sociedade dual e de um espaço seletivo.

Defende, nesse livro, que a complexidade das variáveis que compõem a urbanização do país é tamanha, que não seria mais possível continuar pensando o Brasil como dividido em rural e urbano, mas que diante da revolução urbana que nele se processa, desde a década de 1980, seria mais correto pensar em um Brasil urbano com áreas agrícolas e em um Brasil agrícola com áreas urbanas.

Dentre os elementos explicativos dessa nova realidade, teríamos o processo de involução metropolitana, em contraposição ao de metropolização, que caracterizava a urbanização até então, quando passam a crescer não somente algumas poucas grandes cidades, mas também as cidades médias e locais criando um verdadeiro 'exército industrial de reserva de lugares', com a proliferação de uma enorme quantidade de lugares propícios ao exercício dos capitais hegemônicos, permitindo a fragmentação do território e uma nova divisão social e territorial do trabalho.

Como característica da nova urbanização brasileira, destaca: o aumento do trabalho intelectual não só na cidade mas também no campo; o crescimento do consumo produtivo e consumptivo; a existência do agrícola não rural, das indústrias agrícolas não urbanas; a cidade como locus de regulação do que se faz no campo moderno; a migração descendente; as regiões do fazer e do mandar etc.

O esforço para a compreensão do território brasileiro se completa com a publicação do último livro Brasil: sociedade e território no início do século XXI (2001), que é praticamente um 'guia de trabalho', como está posto na sua introdução, uma continuação de sua interpretação geográfica do Brasil, um esforço de análise e de síntese do país.

A quantidade e complexidade das elaborações teóricas de Milton Santos fazia com que muitas das questões, conceitos e categorias fossem apresentados, mas nem sempre trabalhados em toda a sua complexidade. Dentre as questões trabalhadas em O Brasil: território e sociedade no início do século XX, destacaríamos a retomada de alguns dos conceitos apresentados anteriormente, mas ainda pouco trabalhados, que são retomados, tornando-se mais complexos e mostrando um série de derivações. Lembraríamos especialmente os conceitos de circuitos espaciais da produção, que formam um par dialético com os círculos de cooperação, e o da Região Concentrada.

O conceito de circuito espacial da produção foi tratado num texto pouco lido, publicado em 1986, num livro organizado por ele e Maria Adélia Aparecida de Souza. Neste explicita que 'os circuitos espaciais da produção nos dão a situação relativa dos lugares, isto é, a definição, num dado momento, da respectiva fração de espaço em função da divisão do trabalho sobre o espaço total de um país. Aí se conjugam as relações de produção social, que os circuitos de ramos tipificam, as relações sociais de produção, dadas pelas firmas, mas também as relações de produção do passado, mantidas ou rejuvenescidas pelas relações atuais e representadas por relíquias ou heranças, tanto na paisagem quanto na própria estruturação social' (p.130)

Enquanto alguns livros são voltados totalmente para a reflexão teórica, à reflexão da epistemologia do espaço e da Geografia, esses últimos livros citados poderiam ser utilizados como uma espécie de 'guia de trabalho', esforços de análise e de síntese, exemplos importantes de como imbricar o teórico com o empírico, tarefa das mais difíceis e uma das marcas importantes da obra de Milton Santos.

Por uma outra Globalização

É imperativo citar as duas obras que são exemplos maior de militância pela construção da cidadania e da ética, como é o caso do livro O Espaço do Cidadão (1987) e Por uma outra globalização (2000).

O Espaço do Cidadão foi escrito no calor dos debates sobre a nova Constituição Brasileira e é um excelente começo para os não geógrafos que querem se iniciar nas leituras miltonianas. Discorre sobre a supressão sistemática e brutal da cidadania à maior parte da população brasileira, que se dá concomitantemente à evolução da sociedade de consumo, o verdadeiro ópio contemporâneo, regredindo na escala de valores.

Põe a nu o processo de transformação do cidadão em simples consumidor insatisfeito, que, alienado, aceita ser chamado de usuário, servindo ao economicismo reinante, mostrando a vitória do consumo como fim em si mesmo e das empresas no comando do território. Na construção da sociedade corporativa, da qual o Brasil é um exemplo, 'reina a propaganda como fazedora de símbolos, o consumismo como seu portador, a cultura de massas como caldo de cultura fabricado e a burocracia como instrumento e fonte de alienação'.

No livro Por uma Outra Globalização disserta sobre os pilares da globalização, suas conseqüências territoriais e sociais e desenha um futuro cheio de esperança, conclamando todos para a busca de uma outra globalização, na qual não haja lugar para o globalitarismo. Sua esperança reside no fato de que ao mesmo tempo em que se globalizam a taxa de lucro, a exploração, a miséria, a exclusão social, globalizam-se as lutas sociais, os ideais contra a globalização, o conhecimento e a vontade de mudar o mundo. Na sua idéia de futuro, traço marcante de sua personalidade, acreditava na construção do período demográfico-popular, quando a luta cotidiana do povo abrirá novos caminhos, auxiliada pela empirização da totalidade.

Dessa forma, esses dois livros colaboram, entre muitas outras coisas, para a desalienação do indivíduo, a partir do ponto que acreditemos que uma outra globalização é possível. Não temos que acreditar que as formas-conteúdo do presente são inevitáveis, incontestáveis, mas que podem e devem ser recusadas e que este novo momento da revolução burguesa, marcada pelo globalitarismo, será substituído por um outro, no qual predominará a solidariedade local, a solidariedade horizontal em substituição às verticalidades opressivas das empresas hegemônicas, quando a luta cotidiana do povo abrirá novos caminhos.

Acreditar nestes novos caminhos é que nos faz seguir em frente, mesmo com a ausência de quem assim nos ensinou, pois com ele aprendemos que só o trabalho de compreensão do presente é que nos ajudará a construir um outro futuro. Dessa forma, apesar de ausente, ele está presente quando nos ajuda na leitura analítica do mundo, contribuindo para criar a consciência do presente período histórico. Sua obra constitui-se, então, num dos caminhos para a construção de uma outra globalização.

Seguindo uma das muitas lições que aprendemos com nosso mestre, terminaríamos, então, como ele ao final das reuniões de trabalho, desejando-lhes coragem, coragem para o trabalho, coragem para a construção de uma outra globalização. 'O cotidiano será, um dia ou outro, a escola da desalienação'. Saudades do futuro.


Bibliografia

SANTOS, Milton. A cidade nos países subdesenvolvidos. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira S.A., 1965.

SANTOS, Milton. Geografía y economía urbanas en los países subdesarrollados. Barcelona: Oikos-Tau S.A. Ediciones, 1973.

SANTOS, Milton. Sociedade e espaco: a formacão social como teoria e como método. Boletim Paulista de Geografia, São Paulo: AGB, 1977, p. 81- 99.

SANTOS, Milton. Por uma Geografia nova. São Paulo: Hucitec-Edusp, 1978.

SANTOS, Milton. O trabalho do geógrafo no Terceiro Mundo. SP: Hucitec, 1978.

SANTOS, Milton. Pobreza urbana. São Paulo/Recife: Hucitec/UFPE/CNPV, 1978.

SANTOS, Milton. Economia espacial: críticas e alternativas. SP: Hucitec, 1979.

SANTOS, Milton. Espaço e sociedade. Petrópolis: Vozes, 1979.

SANTOS, Milton. O espaço dividido. Os dois circuitos da economia urbana dos países subdesenvolvidos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1979 (Coleção Ciências Sociais).

SANTOS, Milton. A urbanização desigual. Petrópolis: Vozes, 1980.

SANTOS, Milton. Manual de Geografia urbana. São Paulo: Hucitec, 1981.

SANTOS, Milton. Pensando o espaço do homem. São Paulo: Hucitec, 1982.

SANTOS, Milton. Ensaios sobre a urbanização latino-americana. SP: Hucitec, 1982.

SANTOS, Milton. Espaço e Método. São Paulo: Nobel, 1985.

SANTOS, Milton. O meio técnico-científico e a redefinição da urbanização brasileira. Projeto de pesquisa apresentado ao CNPq, 1986 (datilografado).

SANTOS, Milton. Aspectos geográficos do Período Técnico-Científico no estado de São Paulo. Projeto de pesquisa apresentado à Fapesp, maio 1986 (datilografado).

SANTOS, Milton. A região concentrada e os circuitos produtivos. Texto apresentado como parte do relatório de pesquisa do projeto O Centro Nacional: Crise Mundial e Redefinição da Região Polarizada, 1986 (datilografado).

SANTOS, Milton. O espaço do cidadão. São Paulo: Nobel, 1987.

SANTOS, Milton. Metamorfoses do espaço habitado. Paulo: Hucitec, 1988.

SANTOS, Milton. O Período Técnico-Científico e os estudos geográficos: problemas da urbanização brasileira. Projeto de pesquisa apresentado ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), mar. 1989 (datilografado).

SANTOS, Milton. Metrópole corporativa fragmentada: o caso de São Paulo. São Paulo: Nobel/Secretaria de Estado da Cultura, 1990.

SANTOS, Milton. A urbanização brasileira. São Paulo: Hucitec, 1993.

SANTOS, Milton. Por uma economia política da cidade. SP: Hucitec /Educ, 1994.

SANTOS, Milton. Técnica, espaço, tempo. São Paulo: Editora Hucitec, 1994.

SANTOS, Milton; SOUZA, Maria Adélia A.(org.). A construção do espaço. São Paulo: Nobel, 1986.

© Copyright Denise Elias, 2002

© Copyright Scripta Nova, 2002

Ficha bibliográfica:

ELIAS, D. "Milton Santos: a construção da geografia cidadã". In: El ciudadano, la globalización y la geografía. Homenaje a Milton Santos. Scripta Nova. Revista electrónica de geografía y ciencias sociales, Universidad de Barcelona, vol. VI, núm. 124, 30 de septiembre de 2002.

http://www.ub.es/geocrit/sn/sn-124.htm [ISSN: 1138-9788]

Justiça barra obra milionária no Itaim Bibi no entorno da Casa Bandeirista

Blogger Blogger: O embargo deveria acontecer pela falta de estudos de impacto ambiental e não por causa de cacos de louça sem nenhum valor. O Itaim Bibi não tem passado histórico ou arqueológico que mereça preservação. O que a região precisa é de arborização adequada, fechamento de todos botecos, remoção de vendedores ambulantes e moradores de rua com distúrbios psiquiátricos e remanejamento das linhas de ônibus. Por que todos os ônibus que vão para a periferia da região de Santo Amaro têm que passar pelas ruas estreitas do Itaim Bibi? Aqui é um bairro degradado justamente por transeuntes que não têm qualquer vínculo com a região.
Por que Higienópolis consegue manter qualidade de vida para seus moradores e o Itaim Bibi não? Exatamente porque se fechou ao tipo de pluralismo cultural populista que sempre é pernicioso.


Falta de prospecção arqueológica emperra construção de shopping

Vitor Hugo Brandalise

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090429/not_imp362273,0.php


A Justiça Federal concedeu liminar para a paralisação das obras no entorno da Casa Bandeirista do Itaim, em área nobre da capital paulista, no quarteirão das Ruas Horácio Lafer, Iguatemi, Aspásia e Avenida Brigadeiro Faria Lima, no Itaim Bibi, zona sul. A autora da ação, a procuradora da República Ana Cristina Bandeira Lins, do Ministério Público Federal em São Paulo, alega que as obras começaram, em julho do ano passado, sem que houvesse prospecção arqueológica necessária no subsolo, num sítio arqueológico reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).


No local, conhecido como Sítio do Itaim, as empresas Maragogipe Investimentos e Participações, Company e Brascan constroem um shopping center e duas torres comerciais, num dos metros quadrados mais caros do País. O terreno, de 22 mil metros quadrados - dentro do qual fica a Casa Bandeirista, tombada pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado (Condephaat) e pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico (Conpresp) - foi adquirido no início do ano passado, por cerca de R$ 440 milhões.


A liminar, de 23 de abril, prevê paralisação imediata das obras, perícia nas escavações realizadas nos cerca de 22 mil m² e elaboração de estudo para salvamento dos resquícios arqueológicos retirados do local. "Verificamos na última vistoria, na semana passada, que grande parte do patrimônio arqueológico foi destruída, por causa das obras de fundação, de mais de 20 metros de profundidade", disse a procuradora.


As áreas no entorno da Casa Bandeirista do Itaim - que, no projeto das empresas, seria transformada em centro cultural, anexo aos edifícios - eram as únicas que estavam parcialmente preservadas. Com a liminar, também foi determinado que as empresas mapeiem as vias de acesso, analisem os perfis geotécnicos e o projeto do empreendimento, elaborem matriz de impacto e qualifiquem os danos ocorridos.


As empresas, segundo a sentença, têm dez dias a partir da data em que forem citadas oficialmente para iniciar perícia para verificar exatamente que tipo de material foi retirado do local e estudos de salvamento para resgate de utensílios com valor arqueológico. Caso não cumpram as determinações judiciais, as empresas terão de pagar multa diária de R$ 50 mil, a ser revertida ao Fundo de Direitos Difusos. Segundo a procuradora, deve ser instaurada uma investigação criminal no caso. A legislação prevê, em três artigos no Código Penal e na Lei Ambiental, pena de 1 a 3 anos para esse tipo de crime.


A incorporadora Brascan, que representa o consórcio, afirma que vai recorrer assim que for notificada oficialmente da decisão. Segundo o diretor de Incorporação da Unidade São Paulo, José de Albuquerque, a empresa conseguiu autorização dos órgãos municipais para iniciar as obras amparada em decisão judicial de 1996, do juiz Carlos Roberto Feres, do Tribunal de Justiça de São Paulo. Na decisão, o magistrado afirma não ser indispensável a prospecção no local. "O juiz define a área do entorno de 2 mil metros quadrados, e não os cerca de 20 mil restantes. Como já há estudos arqueológicos da década de 1980 no local, até mesmo arquivados no acervo do Estado, não houve necessidade de novas prospecções. Por isso, conseguimos autorização", diz.


O Iphan, porém, por entender que não se tratava de assunto de interesse do Estado, e sim da União, solicitou suspensão imediata das obras em julho do ano passado, logo que as escavações começaram. "A empresa foi notificada e continuou a escavar. Isso mostra que eles sabiam que havia ilegalidade e, ainda assim, continuaram as obras", afirma a procuradora. Em sua defesa, a Brascan afirma que a obra continuou porque "havia autorização de todos os outros órgãos, mesmo com o pedido do Iphan". "Estamos dentro da legalidade e vamos provar. Não somos loucos para fazer uma obra dessa magnitude, em um local visado como esse, sem que estivesse tudo em ordem." Procurada pela reportagem, a Secretaria Municipal de Habitação não pôde responder porque o departamento já havia encerrado expediente.


Na ação, a procuradora anexou detalhes de objetos encontrados, durante vistorias técnicas no ano passado. São, principalmente, utensílios domésticos do século 18, que ajudariam a revelar o cotidiano do cidadão paulistano ao longo de 200 anos - louças brancas de 1789; penicos e talheres identificados como sendo de 1850; xícaras de porcelana Mauá, das primeiras décadas do século 20, entre outros. "Com escavadeiras trabalhando desde o ano passado, imagine quanto não foi perdido?", questiona Ana Cristina.


Nos últimos meses de 2008, quando a obra estava na terraplenagem, segundo o Estado apurou junto à empresa contratada para o serviço, foram retiradas cerca de 25 mil toneladas de terra - média de cem caminhões por dia. Os restos, sem nenhum tipo de triagem, foram levados às áreas de descarte, ao longo da Rodovias Anhanguera e Castelo Branco, com entulho de outras obras. "Teremos de ver, a partir de agora, o que ainda é possível salvar."



FRASES


Ana Cristina Bandeira Lins

Procuradora


"Verificamos que grande parte do patrimônio arqueológico foi destruída, por causa das obras de fundação de mais de 20 metros de profundidade"


José de Albuquerque

Diretor da Brascan


"Estamos dentro da legalidade e vamos provar"

SP fecha albergues e cria Centro-Dia


Blogger Blogger: O Prefeito Kassab está com a razão ao tomar medidas para viabilizar a cidade de São Paulo. ONGs costumam adotar discurso e práticas populistas e viver `as custas da malversação do dinheiro público ou privado.


Prefeitura foca atendimento a morador de rua em ações diurnas; ONG acusa política para o centro de ''higienista''


Diego Zanchetta e Vitor Hugo Brandalise

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090430/not_imp363075,0.php


O atendimento ao morador de rua mudou em São Paulo. Albergues tradicionais do centro, por onde transitavam todos os dias parte dos 10,7 mil desabrigados da capital, foram fechados. O acolhimento ocorrerá agora principalmente em três "centros de convivência" diurnos - chamados de Centro-Dia. Esses locais - 1 em Santa Cecília e 2 no Parque D.Pedro II - são a maior aposta da secretária da Assistência Social e vice-prefeita, Alda Marco Antonio. "Estão ocorrendo mudanças e elas vão continuar. Se em seis meses esse novo modelo não tiver resultado, pensaremos em outro", afirma a secretária, criticada por entidades que classificam sua política de "higienista" para a região central.


As mudanças nesses primeiros quatro meses já causam polêmica entre entidades envolvidas há duas décadas na assistência à população de rua. A secretária admitiu, por exemplo, que não gosta de ver moradores de rua "comendo em chãos duros". Ela disse que as entidades que distribuem sopas e alimentos em diversos pontos do centro serão convidadas a fazer o trabalho dentro dos centros de convivência. "O primeiro será inaugurado em Santa Cecília, logo após o prefeito voltar de viagem da Ásia (dia 21). Dentro dessas tendas, quero que a comida seja servida com os moradores sentados à mesa, vendo televisão e conversando com nossos educadores, e não na calçada de uma rua escura."


Nos centros, os moradores vão poder passar o dia recebendo atendimento psicológico, médico e social. "Queremos oferecer mais do que o banho do albergue. A ideia é que o morador (de rua) que se recusava a ir para o abrigo seja atraído para o centro", disse Alda. Esses locais, porém, não terão dormitório. Segundo o governo, os moradores terão a opção de ser removidos para outros albergues, de bairros como Vila Alpina e São Miguel Paulista, na zona leste, no fim do dia. "Se ele (morador) quiser encostar e dormir no centro de convivência, não terá problema", afirma a secretária.


Alda também discorda do atendimento das Kombis que transportavam os moradores de rua do centro para albergues. O serviço era realizado por 40 carros, por meio de um convênio com a organização não-governamental Santa Lúcia que não foi renovado. "Os moradores passaram a ligar para os responsáveis pelas Kombis a qualquer hora. Era comum o morador de rua chamá-los, em vez de andar cinco quarteirões até o albergue. Então, tenho dúvidas sobre a eficácia do atendimento que era feito por esses veículos."


Para entidades, a secretária quer afastar os desabrigados do centro. Em março, foi fechado o principal abrigo da região central, o São Francisco (no Glicério), com capacidade para 720 pessoas. Antes, o Centro de Acolhida Jacareí, na Bela Vista, já havia sido fechado, em julho. E as entidades também reclamam do atraso nos repasses do governo. "Fechamos albergues que não tinham condições sanitárias, mas fizemos remanejamento de vagas para outras unidades. Não houve extinção de lugares", argumenta. "O aumento dos moradores de rua pode ser um reflexo direto da crise", acrescenta. A Secretaria de Assistência Social informa também que quatro novos convênios para o atendimento da população de rua do centro devem ser ratificados até o fim de maio.


FORÇA POLÍTICA


Alda foi o elo da gestão Kassab para a aliança com o PMDB, principal partido de sustentação à reeleição do prefeito. A parte paulista da sigla, capitaneada pelo ex-governador Orestes Quércia, também já adiantou que apoiará José Serra (PSDB) na eleição presidencial. Com força política, a secretária ganhou autonomia para implementar uma nova gestão na Assistência Social. 


NÚMEROS 


10,7mil desabrigados estão nas ruas da capital


1 centro de convivência vai funcionar em Santa Cecília


2 centros farão atendimento a desabrigados no Parque D. Pedro II


720 lugares era a capacidade do abrigo São Francisco, no Glicério,

fechado em março



Quinta-Feira, 30 de Abril de 2009 



''Mandam o problema para a periferia''

ONGs alegam que moradores de rua habitam região para ter acesso à comida e encontrar trabalhos informais


Vitor Hugo Brandalise e Diego Zanchetta

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090430/not_imp363079,0.php


Em qualquer dia da semana, nas ruas principais do centro histórico de São Paulo, é por volta das 20h30 que a real dimensão do problema se revela - é quando são formadas, no Pátio do Colégio, na Praça da Sé, no Largo São Francisco, filas imensas de moradores de rua, aguardando o início da distribuição de comida por representantes de entidades. "Hoje tem salsicha! Fazia tempo!", exclama José Vieira da Rocha, de 49 anos, morador da Praça da Sé desde 2001. "Vou aproveitar, é a única (refeição) do dia", ele diz, segurando o marmitex, empurrado pelo próximo da fila. 


Enquanto a multidão se dispersa, uma figura passa correndo, próximo à Catedral. Carrega entre os braços a cabeça e as tripas de um peixe. "Arranjei no Mercadão", revela Erivaldo Soares, de 38 anos, ao lavar o bicho com água de um dos chafarizes da Praça da Sé. "Lá no Mercadão sempre tem refeição."


Para quem vive nas ruas, é esse o tipo de oportunidade que um local como o centro de São Paulo oferece - comida, além de trabalhos informais. "É com isso tudo que a Secretaria ( de Assistência Social) pretende acabar, com o fechamento dos albergues de São Francisco (no Glicério) e do Jacareí (na Bela Vista)", afirma Anderson Miranda, coordenador do Movimento Nacional dos Moradores de Rua. "Estão tentando limpar o centro, empurrar o problema para a periferia." Segundo a Assessoria de Imprensa da Assistência Social, o aumento na população de rua é uma situação transitória, de adaptação à nova política enquanto mais convênios são fechados.


Para as entidades, contudo, além do fechamento dos albergues, o fim do programa de atendimento espontâneo a moradores de rua do governo contribuiu para engrossar o número de pessoas vivendo em áreas já saturadas do centro. Atualmente, os atendimentos são realizados somente quando há o encaminhamento por oficiais da Guarda Civil Metropolitana (GCM) ou se há denúncia da população. 


Além disso, as entidades reclamam da redução da Central de Atendimento Permanente de Emergência (Cape), que teve seu número de veículos de atendimento à população de rua reduzido de 44 Kombis para 20.


Quem vive nas ruas já sentiu a diferença. "Dizem que só há vagas nos albergues da periferia, que não tem mais como dormir no centro", afirma o morador de rua Adriano da Silva Pereira, de 28 anos, há seis meses vivendo na Rua Anchieta, próximo ao Pátio do Colégio. "Mas quem quer ir para São Mateus, ou para São Miguel? Nos acordam às 6 da manhã e vamos para a rua, temos de voltar ao centro andando", relata o morador, que costumava dormir no Albergue São Francisco, no Glicério.


GUARDA CIVIL


Outra crítica das entidades diz respeito à atuação da GCM, que passou a realizar abordagens a moradores de rua, conforme autoriza um decreto de 25 de fevereiro deste ano. Na noite de anteontem, o Estado acompanhou a atuação de sete GCMs, em serviço na região central. Segundo os guardas, a orientação é para que seja realizada a "limpeza e melhoria visual nas regiões mais visitadas da cidade, para liberação da revitalização do centro". A secretária de Assistência Social nega ter dado orientação à GCM.


"Minha tarefa é empurrá-los para fora da minha inspetoria", chegou a dizer um inspetor da corporação. O resultado dessa política, segundo as entidades, é que, enquanto ruas próximas à Praça da Sé, Largo São Francisco e Pátio do Colégio se transformam em camas coletivas, outros locais historicamente utilizados pelos moradores de rua, como o Vale do Anhangabaú e a Praça do Patriarca, mais próximos à Prefeitura, hoje praticamente não apresentam o problema.


Palmito juçara, palmeira em extinção


http://tvuol.uol.com.br/#list/type=search/q=extin%E7%E3o%20alimentos/sort=mostRelevance/

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Projeto Consciência Gerontológica - Tecnisa

Projetando com Consciência Gerontológica, a Tecnisa prevê mais qualidade de vida e conforto para os idosos.

"Somos todos construtores: construímos sonhos, construímos momentos, construímos nosso próprio tempo..."

Tecnisa, mais construtora por m²

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Internet pela rede elétrica

Juliana Oliveira


http://wnews.uol.com.br/site/noticias/materia.php?id_secao=4&id_conteudo=13287


São Paulo, 29 de abril de 2009 - No último dia 13 de abril, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) regulamentou a resolução 527/2009 sobre o uso comercial do BPL (do inglês Broadband over Power Line) ou PLC (Power Line Communication), tecnologia que permite compartilhar a infraestrutura da rede de energia elétrica para acessar internet. Isso significa que, em vez dos modems convencionais para conexão ADSL, cabo ou 3G, o usuário terá à disposição uma outra solução que permite a utilização de um equipamento específico para navegar na web por meio da rede de eletricidade comum.

Segundo os fabricantes dos modems para esse tipo de acesso, pelo BPL é possível alcançar transmissões de até 200 Mbps. No entanto, diversos testes realizados pela Anatel concluíram que a velocidade média não ultrapassa 20 Mbps. De posse do equipamento, que ainda não está disponível para compra no mercado, o usuário irá conectá-lo ao fio do computador, que por sua vez será plugado na tomada receptora de energia.

Como a rede de eletricidade é compartilhada, as concessionárias de serviço, juntamente com as provedoras de acesso, também necessitam implantar um outro modem PLC, conhecido como Master, na infra da rede elétrica secundária da baixa tensão. Por meio de filtros, para que não haja interferência com a frequência da energia usada para alimentar os aparelhos eletrônicos, a transmissão de dados, voz e vídeo é feita.

A principal vantagem da banda larga BPL é conseguir alcançar lugares muitos distantes, onde os outros meios para acesso internet não chegam. Outro fator é a inclusão digital, visto que 97% dos domicílios brasileiros têm eletricidade, e a meta do governo, por meio do programa “Luz para todos”, é ampliar para 100% das residências até 2010.

No entanto, apesar do aval da Anatel, o imbróglio que vem se desenrolando desde 2006 apenas será concluído a partir do segundo semestre. A regulamentação que passou na autarquia agora está em audiência pública na Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). A data limite para as considerações é 13 de maio - para só então obter um resultado concreto da aprovação.

De acordo com a Anatel, um dos pontos que estão sendo avaliados é como as empresas de eletricidade poderão atuar. O que se sabe é que muitas precisarão obter licença para operar Serviço de Comunicação Multimídia (SCM). Somente depois é que elas poderão atuar nesse mercado. Algumas já obtiveram essa autorização.

Investimentos
Concessionárias de energia correm para levar uma fatia do bolo da internet. A AES Eletropaulo Telecom, por exemplo, vem testando a tecnologia desde novembro de 2007. No projeto-piloto, que inclui 300 prédios e 150 residências, foram investidos R$ 20 milhões.

Na região metropolitana de São Paulo, a companhia tem mais de dois mil quilômetros de fibra óptica instalados. No entanto, a empresa deixa claro que seu principal interesse é atingir prestadoras de serviço. “É importante salientar que vamos oferecer as soluções para os nossos clientes, no caso as operadoras e prestadoras de serviços de telecomunicações”, explica Teresa Vernaglia, diretora-geral, da AES Eletropaulo Telecom.

Já a Companhia Paranaense de Energia (Copel) começou seu projeto no começo deste mês. Inicialmente, 300 usuários do município de Santo Antonio da Platina, região a 370 km de Curitiba, já plugaram seus computadores na tomada e começaram a navegar.

Outra região que utiliza a intenet via BPL é o município de Barreirinhas, no Maranhão. Encabeçada pela Companhia Energética do Maranhão (Cemar) e coordenada pela Fitec e Aptel (associação de empresas proprietárias de infraestrutura e sistemas privados de telecomunicações), a iniciativa tem como principal meta a inclusão digital. Na cidade, serão criadas 14 ilhas digitais em pontos de prestação de serviços (escolas, bibliotecas, postos de saúde, prefeitura e secretarias).

Enquanto as empresas de eletricidade tiram do papel seus projetos, algumas provedoras de telecomunicações preferem não se manifestar, caso da Telefônica e da Oi. Já a GVT foi categórica ao afirmar que não tem planos de investir nessa área.

De acordo com Alcides Troller Pinto, vice-presidente de marketing e vendas da GVT, os testes que vêm sendo realizados há anos no Brasil ainda não comprovaram a viabilidade comercial do serviço. Durante teleconferência de apresentação dos resultados financeiros, realizada na última semana, o executivo afirmou ainda que a “operadora quer ter certeza da qualidade das conexões de internet”, algo que, segundo ele, a companhia não teria garantia caso utilizasse a rede de terceiros.


Custo
Mas o que muda efetivamente com a entrada desse novo sistema de acesso banda larga no mercado? Só o que os especialistas do setor têm certeza é sobre uma possível inclusão digital que a tecnologia poderá proporcionar.

Quanto ao preço, isso é relativo. Dois fatores devem ser levados em conta: o quanto as telcos terão de investir para usufruir da rede das concessionárias – algo ainda em estudo - e como se dará a permissão de uso.

“Muitas empresas, especialmente as provedoras de acesso, ainda aguardam a decisão da Aneel para estruturarem seus planos de negócio”, explica Marcos de Souza Oliveira, gerente de Engenharia do espectro da Anatel.

Adir Araújo Pinto, gerente de negócios Fitec, empresa que prestou consultoria para AES Telecom, Celg (de Goiás) e Cemar, explica que o BPL é uma solução complementar para as empresas. “O objetivo não é substituir as tecnologias, sendo uma oferta em detrimento da outra, mas sim, ampliar a gama de produto e servir como um fator de inclusão digital”.

Embora Araújo prefira não precisar valores exatos do quanto seria a redução do preço para o usuário final, ele garante que o valor pode cair sim. “Mas isso vai depender de cada companhia”, diz.

Já a Copel considera como estratégia para o futuro cobrar apenas pelo uso efetivo que o usuário fizer do serviço, tal como acontece com o consumo de eletricidade. "Hoje, o consumidor paga um preço determinado pela capacidade e velocidade da sua conexão, não importando se ele a utiliza bastante, pouco ou quase nada", afirma Orlando César de Oliveira, coordenador do projeto de BPL. E complementa: "Imaginamos ser perfeitamente possível implantar um sistema de cobrança mais justo, que leve em conta a utilização real e efetiva do internauta".

Nas simulações feitas pelo coordenador do projeto de BPL, a modificação na forma de cobrança pode resultar numa redução à metade dos preços cobrados hoje pelos sistemas convencionais de conexão. "Isso fará do sistema uma modalidade de conexão bastante acessível e extremamente competitiva dentro do mercado de telecomunicações no futuro", conclui o executivo.

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