Há muitas histórias por contar, e a de Fátima é uma delas. O enredo faz parte do nosso folclore religioso, do nosso imaginário afeiçoado às utopias, do exibicionismo das nossas expressões colectivas e também da nossa história profunda. Por isso, Fátima já faz parte da nossa identidade como país: vir a Portugal e não ver Fátima é como ir a Meca e não ver a Kaaba. A imagem da Senhora de Fátima é um marco de identidade e de referência religiosa colectiva para as comunidades de emigrantes portugueses por todo o mundo.
Fátima tem o nome da filha do profeta Maomé, o fundador do Islão. Ela nasceu em 606 da nossa era, casou com um primo chamado Ali, que veio a ser o quarto califa na sucessão do Profeta e que morreu assassinado numa mesquita, deixando três filhos: Hassan, Hussein e Mossein. Os muçulmanos ocuparam e administraram a Península Ibérica a partir do ano 711 e a Península só voltou a ser inteiramente administrada por governos cristãos a partir de 1492, no ano em que Cristóvão Colombo chegou à América. Foram oito séculos de Islão na Península ibérica! O cristianismo nunca desapareceu da península Ibérica, mas só voltou a impor-se no território a sul do Mondego cerca de 400 anos após a invasão islâmica; muitas das terras receberam nomes adequados às tradições religiosas e culturais islâmicas e uma delas foi Fátima, em honra da única filha do Profeta, apesar dele ter sido um amante exemplar das suas 13 mulheres.
Em 1916 começaram a acontecer coisas estranhas nas proximidades deste lugar perdido na Serra Daire. Contaram três crianças que tinham visto um anjo por duas ou três vezes; perguntaram-lhe quem era e ele disse que era o Anjo de Portugal. Nunca ninguém tinha ouvido falar de tal personagem, de que Portugal tivesse um Anjo nem de quais seriam as suas funções. O mais curioso é que o personagem ensinou as crianças a rezar e fê-lo ajoelhando-se e curvando-se até tocar com a cabeça no chão. A descrição do acontecimento é tão insólita que as crianças não podiam ter inventado uma cena destas. O Anjo rezou como costumam rezar os muçulmanos.
O anjo nunca mais voltou; as crianças veriam no ano seguinte aparecer-lhes outra entidade, um vulto de contornos mal definidos, que parecia uma senhora muito branquinha, de saia pelo joelho, envolta em luz ofuscante. Perguntaram-lhe quem era, mas ela não respondeu; voltou a revelar-se, voltaram a perguntar, mas o vulto estranho não pareceu muito interessado a revelar quem era. Acabaram as próprias crianças por encontrar uma identificação apropriada, era a Nossa Senhora, a mãe de Jesus e o povo que acorria ao local, cada mês à mesma data, para assistir a um espectáculo esotérico, acabou por aceitar que deveria ser, certamente, a celestial criatura. No final das aparições, pela sexta vez, o vulto de luz ter-se-à identificado finalmente como a senhora do rosário. Depois veio o tempo das hesitações, da decantação da história, levou anos a tecer um enredo credível e sustentável, facilitado pela morte de dois dos protagonistas e o afastamento de uma das crianças do local dos acontecimentos, até se organizar a festa. Duas das crianças eram moças e uma era um rapaz; o coitado não viu nem ouviu grande coisa do que aconteceu, deixou-se ir na enxurrada; uma das moças pouco viu, pouco ouviu e ambos desapareceram levados pela mesma doença que dizimou milhares de crianças naquele tempo. Só sobreviveu uma testemunha de todo o enredo, solitária e enclausurada, que afirmou que a estranha personagem a terá ainda visitado posteriormente, algumas vezes.
Que algo aconteceu em Fátima, fora do comum das coisas que acontecem normalmente pelas nossas serranias, disso ninguém pode duvidar. Mas aconteceu o quê exactamente? Porque é que o anjo rezou daquela maneira, porque é que não voltou mais? Se foi a mãe de Jesus que se manifestou àquelas crianças típicas do Portugal rural da época e que em dada altura deu a alguma da gente que lá acorreu um espectáculo de luzes e de cheiro, não deve ter escolhido ao acaso o local de aterragem. E porquê ter escolhido um dia 13, número maléfico desde uma remota antiguidade? A mãe do Messias terá vindo mostrar-se numa terra que tem o nome da filha do Profeta que fundou a maior religião do mundo? Fê-lo privilegiando crianças, duas delas mulheres como ela, a quem falou de oração, de tristeza, do bem e do mal, da guerra e da paz, do céu e do inferno, de vícios e virtudes, até terá deixado um segredo, mal guardado e muito mal contado. Obviamente que todo este enredo tem os ingredientes de uma linda história de mulheres.
Mas como normalmente são os homens que mandam na religião, sejam eles judeus, cristãos ou muçulmanos, ajeitaram a festa à moda deles e foram contando a história ao jeito brutal do poder dos machos. Levaram 13 anos a confeccionar um programa credível: o testemunho das crianças mortas era frágil e pouco coerente, o da sobrevivente era suspeito e sofria de intervenções exteriores intencionadas. Esqueceram-se do anjo, baixaram a bainha da saia da criatura, colocaram-lhe aos ombros um manto enfeitado com ouro, coroaram-lhe a cabeça, criaram-lhe uma imagem de rapariga jovem, de tez tão branca que parece anémica, uma figura atípica que não inspira desejos nem emoções, transformaram a serrania agreste num arraial de insuspeita devoção, exploraram segredos e emoções profundas, criaram uma nova cidade e montaram comércios, armaram uma monumental trapalhada e deixaram para segundo plano o essencial de toda religião: a relação da criatura com o seu criador, a autenticidade da fé. Trinta e cinco anos depois dos acontecimentos consagrava-se uma igreja para aconchegar a piedade e as emoções dos peregrinos; noventa anos depois inaugurava-se uma nova e grande basílica para acolher ao abrigo do sol e da chuva mais de 5.000 pessoas de cada vez.
Todos os Messias e todos os Profetas se prostram como todos os anjos e todas as criaturas, em adoração ao seu Deus; só Ele merece que um ser inteligente faça o gesto ritual da humildade, reconhecimento inconfundível da infinita misericórdia do Criador de todo o Universo, de todas as criaturas e termo final de toda a história. Pelos caminhos dos homens que levam a toda a parte, os peregrinos refazem os mesmos passos iniciáticos que se apressam a caminho de Chartres, de Compostela, de Meca, de Benarés, de Jerusalém, de Agmat, de Guadalupe… partilhando com eles o ritual do caminhar. Talvez que o mais importante nem sequer seja chegar a um destino, mas simplesmente caminhar. Fátima é uma fantástica peça de teatro inacabada, uma história de mulheres que continua a desafiar o imaginário e a fé inconstante dos homens; como todas as mulheres guardam insondáveis segredos, Fátima tem uma linda história por contar. O tempo delas há-de chegar, como sempre após uma longa caminhada.
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